I racconti del Premio Energheia Europa

Mavinga, elefante kizua, Sara Duarte Brandão

História vencedora do Prêmio Energheia Portugal 2026

Glossário:

Mavinga — elefante

Kizua — a quem Deus ouviu

No princípio 

No princípio não era. Porque no princípio nada é. Não tem como ser, embora já tenha sido. Esperma, ovo, embrião — que no caso se traduz em desejo, afeto e amor. Foi assim que se construiu o seu princípio que não foi. Porque no princípio nada é.

Ao colo da mãe conheceu-lhe os vales. Aprendemos tudo sobre as montanhas assim que o nosso corpo despido, de olhos ainda fechados, se encosta pela primeira vez naquele outro corpo que, de certa forma, também somos. Percorremos universos no princípio que não temos. Sobre o esforço de começar, abrimos devagar pequenos olhos sensíveis às partículas da luz e choramos, porque sem saber sabemos, que é já o início do fim.

Deus tudo vê e nada ouve

A infância chegou como roupa no estendal. Como incumbência ao ato de ter nascido. Seguia a mãe até ao rio e esculpia figuras no sabonete em barra enquanto ela tirava as marcas de pele das roupas, ao som dos cânticos que trauteava. Com o pai esperava junto ao mercado, horas ao sol, por sapatos para engraxar ou mercadorias que precisassem de ajuda no transporte.

A vida sem pátria era mais fácil, quer-se dizer, a pátria do quotidiano era mais fácil. Os dias eram uma luta sem guerra por um lugar à mesa de jantar, por brincadeiras no quintal. E Mavinga era um rapaz calado, mais observador que tímido, que se alimentava do calor da terra sem se meter em confrontos. Ao fim do dia, quando terminavam as tarefas, o pai dizia-lhe: «Vamos para casa que Deus tudo vê e nada ouve, amanhã também é dia», e Mavinga olhava o sol a pôr-se como quem descobre o fogo. Seria Deus a noite ou a manhã?

A poesia dava flor

Mavinga escrevia versos em pequenos pedaços de papel que enterrava na horta para cultivar o pensamento. Quando ia dormir, a mãe saía à luz da lua com sementes na mão e um pouco de água, desenterrava o papel e voltava a enterrá-lo com uma semente que regava com carinho. Alguns dias depois, chamava o filho à janela à hora de almoço e dizia-lhe feliz: «Mavinga! Mavinga! Vês? Crescem plantas das tuas ideias meu filho!» Ele sorria de orelha a orelha por saber que a poesia dava flor.

Na escola era distraído, nunca por falta de educação mas por excesso de curiosidade em tudo aquilo que o rodeava. De quando em vez pousava um inseto no seu caderno e o dia estava perdido. Tirava as sandálias dos pés para sentir o chão com os dedos. Se também ele se sentisse raíz na sala de aula, cresceria como prosa e o tempo naquela estufa do saber ganhava outro sentido.

Anjos de lama

Nos dias de chuva fazia anjos de lama. Não por querer compensar alguma coisa de que sentia falta, não se pode compensar o que não se conhece e Mavinga nunca vira neve, tão pouco pessoas deitadas sobre ela. O que é certo é que nos dias de chuva fazia anjos de lama. Talvez porque há qualquer coisa no ser-se humano que nos leva à procura de santidade e perdemos meses a olhar para o céu para a vir a encontrar na terra que pisamos.

Quando chovia tudo ficava mais vermelho, como numa espécie de movimentação para o purgatório. A areia intrometia-se na entrada das casas e as roupas eram telas abertas à natureza. Mas a vida continuava e Mavinga saía da escola para o mercado e, quando voltava a casa, via algumas das suas esculturas de sabão derretidas pela humidade, como quem se benze.

A memória é anterior

De quando em vez apareciam grupos de desconhecidos na aldeia. Essa presença estrangeira causava algum alvoroço nos habitantes daquele lugar isolado. Os pais de Mavinga falavam preocupados às refeições, expressavam palavras como «revolução» e «liberdade» entre colheradas de pirão. Às vezes também falavam em «partir» e aí Mavinga arregalava os olhos. Partir é dividir, separar as pessoas da terra, abandonar o sítio de e onde se é, coisa que ele não queria.

Mavinga era dali desde que se lembrava de ser, desde o princípio da memória, da sua memória, porque cada pessoa tem a sua. E a memória é anterior a tudo o resto. Já havia memória antes de haver mundo e haverá memória depois. Mavinga tem na memória o dia em que dois desses desconhecidos foram a sua casa à hora de jantar, vestidos com roupas importantes graças à importância que se lhes dá, para fazer algumas perguntas «aos adultos» como fizeram questão de sublinhar. Foi para o quarto e pensou que gostava que fossem eles a partir.

Os estendais são os corações

Aos poucos a música foi abandonando a sua mãe, curvada sobre o rio a lavar roupa que quase nunca era sua. Ainda assim, ao seu lado Mavinga esculpia figuras animalescas — homens e mulheres com garras e dentes grotescos. Os fins de semana eram os seus dias preferidos. Esses onde deixava a mãe para ajudar o pai no mercado onde aprendeu a deixar sapatos mais brilhantes que espelhos, embora o piso fosse traiçoeiro. Esses dias onde o sol se punha sobre todas as roupas nos estendais feitos de paus e corda. Os estendais são os corações da cidade, as roupas ao vento, os batimentos, o sinal mais claro e universal da vida que há dentro das casas.

Para sua felicidade e incompreensão começou a ter menos dias de escola, menos professores à disposição. Uns iam para a cidade e outros fugiam. Fugiam do quê, Mavinga ainda não sabia, mas sentia os borburinhos percorrerem as pessoas como filas de formigas a transportar o alimento.

Como um elefante

Desde novo que adormecia ao som de histórias que o seu pai lhe narrava. Mavinga nascera no dia da morte do seu avô e adorava ouvir sobre a razão do seu nome. Então, o pai contava sobre o seu pai e de como ele era imponente e carinhoso, como um elefante. Aos domingos reunia toda a família, num «toda» onde cabiam também os vizinhos e as vizinhas, à volta de um prato de muamba com pirão. Cozinhava sempre da mesma maneira em homenagem à falecida mulher e dizia: «Enquanto eu tiver ossos havemos de celebrá-la no Dia do Senhor, no caso, da Senhora!»

«Os elefantes são animais de luto», continuava o pai de Mavinga, «param perante as ossadas, juntos, muito cabisbaixos, e recordam. Sentem saudade. A tua mãe estava a caminho do hospital quando o meu pai se curvou pela última vez, e tu nasceste em renascimento meu filho. Meu filho Mavinga, que significa elefante. Nasceste do luto, já em honra de alguém e em respeito com a terra».

O princípio de alguma coisa que pode não vir a ser

A natureza das coisas pode demorar tanto tempo a mudar que às vezes damos por nós a pensar que tudo sempre foi exatamente como está. A aldeia mais vazia, o comércio quase parado, as roupas arrumadas, muitas delas dentro de malas. Os pais de Mavinga a ponderar se ficam ou vão e, se forem, para onde?

Numa dessas noites dois desconhecidos de farda voltaram e levaram um vizinho que não regressou de manhã. As pessoas ficaram mais sérias e a atitude mudou: era agora o princípio de alguma coisa que pode não vir a ser.

Mãe de todas as palavras que voam

A escola de Mavinga começou a ser a das reuniões clandestinas que os seus pais organizavam em casa e onde ele comia rebuçados sem prestar grande atenção ao que se falava. De quando em vez apontava uma ou outra palavra com potencial de vir a ser enterrada em verso, mas rapidamente voltava para as suas esculturas em sabão. Os adultos debatiam o país sobre um mapa, como se a isso este se resumisse: um mero contorno a caneta num papel.

Rodeavam as grandes cidades a vermelho, já feridas, como pontos a evitar e por quem rezar. Sabiam que a fome vinha para ficar e que assinariam à força, no lugar do seu nome, a palavra independência. A aldeia preparava-se para ser roubada do que tomara como garantido, esse nome feminino, mãe de todas as palavras que voam — liberdade — e só se renderia unida.

O medo

Foi então que Mavinga entendeu que pátria é muito mais do que um lugar onde se nasce, mas um lugar onde se escolhe estar assim, exatamente como se é. Mavinga a quem a palavra elefante atravessou o peito como uma bala, no dia do seu nascimento, não queria o luto do seu país como tivera de fazer o luto do seu avô.

Mas o medo tem destas coisas, une as pessoas umas às outras e por isso, no meio de toda a confusão, Mavinga sentia-se mais seguro do que nunca. Seguia os pais como uma sombra e marcava bem os pés sempre que pisava a terra avermelhada do lugar onde cresceu, porque a pátria também está no corpo.

Kizua

A infância findou como roupa no estendal, que foi sendo cada vez menos. A cada casa fechada, a cada camisola a menos pendurada nos quintais, Mavinga crescia. Foi num dia de muito sol aquele em que sofreram o primeiro ataque, esse que hoje ninguém recorda. Não por falta de memória, mas por falta de crença neste lugar sobre o qual vos escrevo. Também eu não sei ao certo onde fica nem quem lá ficou, apenas que esta é uma história de princípio, que é o mesmo que dizer que nada é, sendo que o princípio foi também o fim.

As figuras animalescas esculpidas em sabão derreteram contra a janela do seu quarto, de onde se viam todas as plantas que brotaram de poemas. A aldeia estava reunida em peso, como num almoço de muamba, quando se avistou a primeira bomba, largada por um pequeno avião. A segunda, bem mais próxima, instalou nos rostos uma tristeza ancestral. O som dos aviões foi substituído por passos bem coordenados que se aproximavam do centro da aldeia, ao lado do mercado onde Mavinga e o seu pai trabalhavam até ao sol se pôr. «Deus tudo vê e nada ouve, amanhã também é dia.» Mas amanhã podia não ser. Mavinga cerrou os olhos e enterrou os pés na terra que era a sua: Deus seria agora. A música regressou à sua mãe como uma arma que não fere. De mão dada ao seu filho cantava: «Mavinga kizua, kizua!», até que, em vez das mãos, eram as suas trombas o que se entrelaçava.

Perante uma manada de elefantes o exército recuou e jura, até hoje, que aquela aldeia estava abandonada, ignorando os vestígios de vida que por lá encontrou. Há uma linha ténue no princípio de Mavinga que interpela os limites do que é humano, se é que alguma vez o foi. Se elefante ou pessoa, de Mavinga sabemos só kizua, que é como». E é nessa linha ténue, que separa a verdade da mentira, onde começam todas as histórias de liberdade e revolução, que tanto são como não, dependendo de quem as crê e as quer ouvir.